segunda-feira, 21 de março de 2011

Arrazoando...


Há cerca de um mês comecei a leitura de um dos textos que mais me encantam na Bíblia, a primeira carta que o Apóstolo Paulo enviou aos seus amados irmãos Coríntios. Destacar um ou outro ponto da carta, na verdade seria uma grande injustiça, pois pela sabedoria e soberania divinas toda ela merece destaque. Paulo inicia sua conversa com aquela igreja de modo bastante caloroso deixando clara sua gratidão por saber que aquelas pessoas eram herdeiras da maior fortuna que um ser humano poderia acumular, a vida eterna. Algo que me encanta muito nessa comunicação do apóstolo é seu modo franco de se dirigir a um grupo de pessoas que ele conhecia bem, afinal fundara aquela comunidade, e por isso tinha grande apreço por aqueles irmãos. Esse apreço e dedicação ficam nítidos também porque ele não deixa de exortá-los quanto aos seus maus hábitos envolvendo questões éticas e morais, vaidades, conflito de interesses e discórdia. Falar sobre isso com sinceridade era mais uma prova do profundo carinho que Paulo nutria pelos coríntios.
O fato é que a decadência moral sempre contemplou toda e qualquer civilização. Já nos tempos antigos, impérios como o grego, o egípcio, o romano eram marcados pela promiscuidade, pelo culto ao prazer, sem se dimensionar conseqüências. Quando assisti a série de TV chamada “Roma”, na qual o modus vivendi no período do Império Romano é desvelado, fiquei de certa maneira chocada com a maneira como se estabeleciam as relações interpessoais, de modo que a própria nobreza, contaminada pela promiscuidade e fazendo uso dela como instrumento de barganha, usava essas práticas como meio para se conseguir poder, status, ou seja, tudo aquilo de ruim que alimenta o coração humano degenerado. O resultado dessas relações tênues, muitas vezes deturpadas e inconseqüentes só podia acabar em tragédias familiares, morte, ódio, e nada há de virtuoso nisso. O Carnaval 2011 e os indicadores de violência associados à festa estão aí e não nos deixam mentir. Os coríntios, antes do contato com o evangelho, também viviam de modo semelhante.
A carta que Paulo escreve a eles mostra que muitas dessas práticas ainda se faziam presentes mesmo após a conversão, e o pior de tudo é que algumas delas se camuflavam com uma capa de espiritualidade com a qual muitos se cobriam. Uma igreja que se gabava pela quantidade de “dons espirituais” envolvendo línguas estranhas, profecias e até curas escondia atrás disso sua própria decadência moral. Paulo queria literalmente descobrir, isto é, retirar de sobre eles esse invólucro bonito para deixar tudo às claras e mostrar que a verdadeira espiritualidade se vivencia principalmente nas relações interpessoais, e eram justamente essas relações que necessitavam tanto ser corrigidas.
Fiquei pensando na minha própria vida quando li essa carta, que pra mim é maravilhosa, e só posso chegar à conclusão do quanto é muito mais fácil demonstrar externamente minha devoção a Deus do que quando estou em casa corrigindo minhas filhas ou no meu relacionamento com meu marido, pais, sogros... e até mesmo na Igreja onde congrego, pois é a segunda casa daqueles que foram regenerados pelo sangue do Cordeiro, nosso amado Jesus Cristo. Aí sim as coisas se tornam complicadas e embora a imoralidade não seja tão evidente, muitas pessoas ainda acham que ela pode trazer algum tipo de bem ou vantagem. Quando vejo jovens que um dia estiveram tão próximos a Deus trocando esse relacionamento pelas ofertas baratas que o mundo oferece, sinto uma dor intensa pelo fato de ter absoluta certeza de que quanto mais se desfruta do que o mundo pode oferecer mais se afunda, mais se quer mais, como um buraco sem fundo. O pior de tudo isso é que as práticas que conduzem ao erro são aquelas que evidenciam a morte, são aquelas que testificam que o nosso corpo é mortal, pois a morte é a recompensa daquele que peca! “O ferrão da morte é o pecado”, já disse Paulo a esses mesmos destinatários.
Muitos querem negar essa verdade, argumentando que é preciso aproveitar a vida, e que isso só é possível quando a vida é dividida em segmentos e Deus ocupa apenas mais um deles.  Trocando em miúdos é exatamente isso que acontece, Deus passa a ocupar uma parcela da vida humana. Isso contraria exatamente o que disse uma vez Jonathan Edwards: “Não há nenhuma parte da vida humana sem que Deus diga: isso é meu”. Por mais que se queira ficar livre dessa, a verdade é sempre verdade, quer se acredite ou não.
 Ao final da carta, Paulo se digna a proferir uma palavra de coragem: “Portanto meus amados irmãos, mantenham-se firmes, e que nada os abale. Sejam sempre dedicados à obra do Senhor, pois vocês sabem que, no Senhor, o trabalho de vocês não será inútil”. (1 Coríntios 15.58). A questão é se lembrar de uma outra máxima: A graça de Deus é o bastante!

sexta-feira, 18 de março de 2011

Vende-se alegria...

Dias atrás li um texto que recebi por e-mail que só fez aumentar o tamanho da minha indignação com esse bombardeio de ofertas e propostas de compra que recebo todo dia via e-mail ou sites de relacionamento. São propostas “irresistíveis” para viagens, roupa nova, bolsa a preço de custo, sapatos de marca, jantares elegantes, pratos exóticos seja lá o que for. É impressionante que sob o pretexto do preço mais baixo viabilizado pelo volume de inscrições e acessos acabamos nos convencendo de que temos que ter tudo aquilo que nos é ofertado, pois do contrário, nossa vida não tem a menor graça. Será?
As inúmeras ofertas e oportunidade imperdíveis, parecem brotar como erva daninha em terreno abandonado.  A ironia disso tudo é que se não nos cuidamos essa metáfora acaba virando realidade e vai dominando nossa mente a tal ponto que nos pegamos começando o dia ansiosos pelas novas sugestões de consumo, como se não pudéssemos passar sem elas.
No texto que li, o autor questionava justamente um fenômeno que é corriqueiro nesse mundo capitalista em que vivemos, o culto ao “melhor”. Melhor carro, melhor celular, melhor laptop, melhor tênis, melhor calça jeans, melhor restaurante, melhor viajem, e por aí vai. Coisas essas que até certo ponto parecem legítimas, afinal, buscar melhorar de vida não é nenhum pecado. O problema é quando isso provoca uma doença, uma doença na alma, que fica viciada no “melhor” e não tem olhos pro que já se conquistou. As conseqüências podem ser desastrosas. Muitas pessoas e até mesmo famílias tem sucumbido à tentação do ter em detrimento do ser. Não quero dizer com isso que sou a favor de privações ou que não concordo com a busca pelo melhor preço a ser pago num produto. Acho, inclusive, que compras em ambiente virtual, por exemplo, podem ser muito mais vantajosas na relação custo/benefício do que em muitas lojas físicas. A questão é que estamos sendo invadidos em nossa privacidade quando abrimos um dos meios de comunicação mais pessoais e particulares e nos deparamos com uma chuva de informes publicitários, que em sua maioria são bem atraentes. O apelo ao consumo tem assediado gente de todo tipo, de todas as idades e, a meu ver esse apelo constante só faz aumentar os sentimentos de frustração, inferioridade, e a sensação de que só se é feliz se há poder de compra.
Seria bom pensar numa maneira de não ficarmos tão expostos a essas chamadas “irresistíveis”, quem sabe nos desvinculando de alguns grupos ou simplesmente cuidando pra trazer à memória o quanto somos afortunados.  

O que me motivou a escrever esse texto, a princípio foi uma inquietação diante da atitude alheia, de um fator externo a mim. Claro que isso não significa que aprovo esse procedimento, continuo a condená-lo, pois acho muito invasivo receber diversas vezes ao dia informações sobre como e com o que devo gastar meu dinheiro.  Ao final da reflexão, porém, noto que essa indignação na verdade deveria começar com as minhas próprias atitudes e reações diante do problema.
 Talvez falte em nós a necessidade de simplesmente agradecer pelo que se tem.  Já dizia o apóstolo Paulo ao seu amigo Timóteo: “Se há o que comer o com o que nos vestir, estejamos contentes”. E olha que essas palavras vieram de alguém que sabia por experiência própria o que é o não ter. O mais interessante de tudo é que justamente o não ter foi o que fez de Paulo um homem que sabia viver contente em toda e qualquer situação. Vou procurar me lembrar disso a próxima vez que estiver diante de uma oferta imperdível. Isso sim é um desafio!