terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Nas entrelinhas

Fiquei pensando no que dizer no meu primeiro post desse canal de expressão das minhas impressões sobre os mais diversos fatos da vida. Pensei então em começar comentando a respeito de algo que pra mim funciona como uma mola propulsora me induzindo a escrever: a leitura.
Janeiro foi bastante proveitoso nesse sentido. Creio ter lido mais de 1000 páginas somando os quatro livros que li ao longo do mês. Dois livros da série “Mitford”, “O Monge e o executivo” e “O Diário de Anne Frank” foram os títulos que ceifaram boa parte do meu tempo livre do período de férias que eu mesma me dei. Foram horas, na minha opinião, muito bem gastas, desfrutando da companhia de personagens no mínimo intrigantes e que ofereceram razões sem número para momentos de reflexão. Embora os três primeiros citados tenham me levado a internalizar diversos conceitos e até mesmo padrões de comportamento, já que a espiritualidade contida neles se fazia presente de forma a encontrar minhas próprias concepções e crenças, não pude deixar de atentar para os relatos surpreendentes de uma menina judia de apenas 13 anos, chamada Anne Frank. Sempre tive curiosidade pra ler esse livro, pouco sabia a respeito, mas algo me fazia lembrar-me desse título sempre que adentrava uma livraria. O livro já havia sido comprado fazia um certo tempo mas a oportunidade para lê-lo veio no início desse ano.
Anne Frank (sinto-me a vontade para dar essas informações, pois são do conhecimento de todos) foi obrigada a se mudar para um esconderijo localizado no subsolo de uma mercearia numa cidade holandesa, para que sua família não fosse descoberta durante o Holocausto. Ela começou a escrever esses relatos já nos primeiros dias morando ali naquela espécie de casa secreta, de cômodos apertados e compartilhada entre duas famílias a princípio desconhecidas, mas que haviam se tornado irmãs por força das circunstâncias. Pensando no sobrenome, Frank, que sempre me traz a mente a palavra “franca”, caso essa fosse a tradução, os relatos daquela adolescente cheia de vida e sonhos condenada a viver em condições tão coercitivas, são de uma franqueza além de uma vivacidade arrebatadora.  É impossível ler o livro sem pensar naquele terrível contexto vivenciado por ela, sua irmã mais velha, seus pais e os membros da outra família, embora por vezes, a energia presente nos relatos de Anne quase nos afastem desses pensamentos. Com muita sinceridade, Anne escrevia com detalhes as sensações que permeavam aquele ambiente que tinha tudo para ser hostil, mas que no coração e na mente daquela menina, não eram capazes de sufocar sua esperança de contemplar o fim da guerra e ver sua família livre. Os relatos me causaram profunda admiração porque apesar daquelas circunstâncias tão difíceis, em que por vezes, eles ficavam sem água, às vezes faltava alimento, às vezes eram obrigados a prender a respiração para que não fossem ouvidos, aquela jovem conseguia ainda estudar, rir de muitas situações e ainda escrever sobre tudo isso.
Anne Frank era dotada de uma fé incrível. Como judia, por vezes se mostrava temente a Deus e decidida a lutar contra a tentação de viver murmurando sua condição. Em seus relatos é comum vê-la condoer-se por outros judeus sendo perseguido e até mortos em campos de concentração, ou então desabafando com seu diário suas tristezas, mas sem deixar de reconhecer que tinha sorte por estar viva.
Anne morreu aos quinze anos, um ano e meio após ter ido morar no esconderijo, foi separada da família e apenas seu pai, de todos aqueles com os quais ela conviveu no anexo secreto, foi quem sobreviveu ao Holocausto. Foi ele quem encontrou o diário da filha e fez questão de torná-lo público dada a riqueza de alma daquela menina que talvez ele mesmo não conhecesse com tanta profundidade. A publicação do diário foi uma grande contribuição dada ao mundo, já que a obra acabou fazendo parte do vasto acervo de documentos que marcaram esse momento histórico.
Ainda que precocemente ceifada, essa adolescente, a meu ver, era portadora da graça comum de Deus, aquela que se manifesta invariavelmente, até mesmo por quem não a compreende ou alimenta essa pretensão. Anne Frank, pra mim, é um exemplo disso, pois embora registrasse em suas anotações o desejo de tornar-se uma escritora, sua visão de mundo foi capaz de lhe desvendar os olhos e perceber coisas boas em meio a tanta adversidade.
Em um de seus relatos ela diz:
“Se Deus me deixar viver, vou realizar mais do que mamãe jamais realizou, vou fazer com que minha voz seja ouvida, vou para o mundo e trabalharei em prol da humanidade!”
Acho que ela alcançou esse objetivo.
Quem tem ouvidos para ouvir, que ouça...

Um comentário:

  1. Amiga, nem preciso dizer que admiro sua inteligência e adoro ler seus textos! Fiquei feliz que você esteja de volta à blogosfera!
    Tô seguindo!
    Bjim

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