sábado, 19 de fevereiro de 2011

Jogo de Palavras

Uma das razões que me motivaram a inaugurar esse blog foi justamente a possibilidade de expressar o que penso e sinto como também pela oportunidade de publicar textos que escrevi em outras ocasiões e agora posso guardá-los pelo menos como um patrimônio pessoal.
Bom, o texto que publico hoje na verdade é o resultado de uma atividade que fiz no meu curso de mestrado e que tinha como objetivo fazer o relatório e um breve resumo de uma palestra que a turma assistiu. O problema é que isso teria que ser apresentado como uma narrativa estética. Como não sou muito boa em desenho e performance resolvi fazer essa tarefa em forma de texto, brincando com as palavras. A palestra tinha como foco estudos a respeito do corpo. E a brincadeira já começa no título:


Corpo em evidência

Na manhã do dia 25 de março desse ano de 2009, numa súbita mudança de planos, mobilizamos nossos corpos ao décimo primeiro andar do edifício da Rua Piauí, número 143 para uma nova dinâmica instrutiva.
Ao chegarmos à porta do auditório, deparamo-nos com corpos disputando um pequeno espaço, afinal, como diz a lei da física, dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo, e estes tinham como objetivo assinar uma lista que atestaria a presença desses mesmos corpos naquele recinto.
Incorporados ao ambiente, alunos e professores de diversos campos aguardavam uma experiência corporal na qual mente e físico estariam alinhados para a compreensão de uma nova temática.
À mesa, dois corpos se movimentavam, o da palestrante e o do apresentador, chamando a atenção dos presentes para o assunto que estaria em pauta: “O Corpo”.
Víamos, como principal expositora do tema, o corpo de Christine Greiner movimentar-se no sentido de expressar através de palavras e gestos alguns aspectos de sua obra intitulada “O Corpo”, que na verdade incorpora uma coleção sobre “leituras do corpo”.
Sobre a obra, a autora comentou que foi o início de uma série de estudos a respeito da temática do corpo, que vem sendo debatida de forma que ela classifica como indisciplinar. O intento a partir dessa abordagem seria caminhar pela quebra de fronteiras da disciplinaridade, já que o corpo não está destituído de faculdades como percepção, consciência e metáforas corporais e, por isso, seus movimentos e reações caminham indisciplinarmente. Corpos movimentando-se na dança e no teatro fizeram parte da pesquisa da autora, que manteve em sua mente a seguinte pergunta: “Como o corpo pensa?”. Em busca de respostas passou a procurar referências bibliográficas de pesquisadores de formação científica que tivessem um trânsito na filosofia.
Corpos movidos pelas heranças culturais presentes na cultura japonesa, corporificam, segundo a autora, o caráter híbrido desse povo e que teriam uma conexão com a cultura brasileira.
Um grande dilema incorpora-se à pesquisa quando se tenta descobrir se o corpo é construído pelo meio ou é o sujeito que o constrói. Sob essa ótica, incorporam-se os conceitos de unvelt (distinção entre comportamento animal e humano), consciente cognitivo e corporificação, no sentido de se pensar a transformação de cada corpo no ambiente em que está inserido a partir de sua singularidade.
Segundo admite a própria autora, o corpo teórico de sua pesquisa está vinculado ao fenômeno que se deseja estudar e não oferece todas as possibilidades. Relação entre corpo e mídia e corpo na mídia também compõem o corpus da pesquisa já que questões como empatia e relação entre consumo e produção revelam corporalmente o que a autora chama de reinvenção do corpo.
Levar nossos corpos a trilhar por caminhos desconhecidos promove a tal reinvenção mencionada pela autora, pois transcende a experiência física e sensorial para atingir as conexões neurológicas intra-corporais. Entre conteúdo e reflexões incorporam-se idéias, mas também incertezas.

É isso...

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Caixinha de surpresas

Por que às vezes é tão difícil organizar idéias que já foram pensadas, revistas, exploradas à exaustão e ainda assim, por conta da pressão, ter dificuldades pára expô-las? É exatamente essa sensação que estou sentindo agora.
Amanhã é o dia marcado para que eu apresente conceitos que já defendi com unhas e dentes, e que conheço com certa profundidade, mas que, por conta da pressão que toda essa situação envolve, me vejo impedida de levar a cabo o que me propus.
Na grande maioria das vezes a pressão, ou seja, o fim do prazo para a realização de uma tarefa, é como um grande impulso pras minhas idéias, como uma força motriz. Hoje, as coisas não estão funcionando assim.
É impressionante como somos capazes de nos surpreender conosco mesmos, como somos vulneráveis às circunstâncias adversas. Isso no meu caso está causando grande desconforto. Como seria bom não sermos pegos de surpresa por nós mesmos, não sermos assaltados pelas nossas próprias reações.  Amanhã vou estar diante de pessoas não totalmente desconhecidas, mas de certa maneira incapazes de avaliar de forma plena quem eu sou e a que venho, pois isso vai depender exclusivamente de como vou vender meu peixe.
Seria tão mais fácil se ao longo da vida não precisássemos de tanta formalidade para expor nossas opiniões ou defender projetos, mas por outro lado, consigo enxergar o lado bom de tudo isso. Toda essa situação traz uma gama de implicações: gera responsabilidade, compromisso, honestidade e revela o caráter. É isso mesmo. Não fosse essa necessidade de submissão a ordens e regras jamais seríamos capazes de chegar aonde conseguimos chegar, ultrapassar nossos limites. Pensando assim, até consigo aliviar minha apreensão por saber que serei esgotada em meu potencial criativo, terei a oportunidade de vislumbrar o quanto ainda posso melhorar minhas incumbências.
Bom, tudo isso porque vou ter a oportunidade de revelar minhas descobertas diante de três mestres, cada qual de posse delas em mãos. Cada um com considerações a fazer e com a total liberdade de desbancar tudo o que construí. Parece assustador, uma maneira de ser colocada em situação altamente constrangedora e subserviente. De qualquer forma não há outra saída senão me submeter. É que na verdade esperava estar melhor preparada para o momento. A sensação que tenho é a de que isso nunca será possível.
Talvez me cobre demais, talvez esteja lutando contra a necessidade de reconhecer que a condição humana tem limites. Infelizmente também sofro desse mal, só peço a Deus para não sucumbir a ele.
O bom é enxergar onde toda essa conversa está me levando. Nada como refletir sobre as nossas imperfeições e saber que apesar delas ainda podemos servir. É isso que desejo, nada mais fiz do que senão explorar um assunto que a meu ver deixaria sua contribuição (mais tarde falarei sobre ele).
Espero fazer minhas essas palavras: "Eis que em Cristo, meu Deus deu a mim (...) por mera e gratuita misericórdia, todas as riquezas da justiça e da salvação, de sorte que, além disso, não necessito absolutamente de mais nada a não ser da fé que crê que as coisas são de fato assim. (...) Assim me porei à disposição de meu próximo como um Cristo, do mesmo modo como Cristo se ofereceu a mim, nada me proponho a fazer nesta vida a não ser o que vejo ser necessário, vantajoso e salutar ao meu próximo". (Martinho Lutero)
Que tudo isso seja uma grande motivação, uma busca por oferecer o melhor, ainda que o preço seja mais alto do que espero. Meia noite ainda é dia...

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Nas entrelinhas

Fiquei pensando no que dizer no meu primeiro post desse canal de expressão das minhas impressões sobre os mais diversos fatos da vida. Pensei então em começar comentando a respeito de algo que pra mim funciona como uma mola propulsora me induzindo a escrever: a leitura.
Janeiro foi bastante proveitoso nesse sentido. Creio ter lido mais de 1000 páginas somando os quatro livros que li ao longo do mês. Dois livros da série “Mitford”, “O Monge e o executivo” e “O Diário de Anne Frank” foram os títulos que ceifaram boa parte do meu tempo livre do período de férias que eu mesma me dei. Foram horas, na minha opinião, muito bem gastas, desfrutando da companhia de personagens no mínimo intrigantes e que ofereceram razões sem número para momentos de reflexão. Embora os três primeiros citados tenham me levado a internalizar diversos conceitos e até mesmo padrões de comportamento, já que a espiritualidade contida neles se fazia presente de forma a encontrar minhas próprias concepções e crenças, não pude deixar de atentar para os relatos surpreendentes de uma menina judia de apenas 13 anos, chamada Anne Frank. Sempre tive curiosidade pra ler esse livro, pouco sabia a respeito, mas algo me fazia lembrar-me desse título sempre que adentrava uma livraria. O livro já havia sido comprado fazia um certo tempo mas a oportunidade para lê-lo veio no início desse ano.
Anne Frank (sinto-me a vontade para dar essas informações, pois são do conhecimento de todos) foi obrigada a se mudar para um esconderijo localizado no subsolo de uma mercearia numa cidade holandesa, para que sua família não fosse descoberta durante o Holocausto. Ela começou a escrever esses relatos já nos primeiros dias morando ali naquela espécie de casa secreta, de cômodos apertados e compartilhada entre duas famílias a princípio desconhecidas, mas que haviam se tornado irmãs por força das circunstâncias. Pensando no sobrenome, Frank, que sempre me traz a mente a palavra “franca”, caso essa fosse a tradução, os relatos daquela adolescente cheia de vida e sonhos condenada a viver em condições tão coercitivas, são de uma franqueza além de uma vivacidade arrebatadora.  É impossível ler o livro sem pensar naquele terrível contexto vivenciado por ela, sua irmã mais velha, seus pais e os membros da outra família, embora por vezes, a energia presente nos relatos de Anne quase nos afastem desses pensamentos. Com muita sinceridade, Anne escrevia com detalhes as sensações que permeavam aquele ambiente que tinha tudo para ser hostil, mas que no coração e na mente daquela menina, não eram capazes de sufocar sua esperança de contemplar o fim da guerra e ver sua família livre. Os relatos me causaram profunda admiração porque apesar daquelas circunstâncias tão difíceis, em que por vezes, eles ficavam sem água, às vezes faltava alimento, às vezes eram obrigados a prender a respiração para que não fossem ouvidos, aquela jovem conseguia ainda estudar, rir de muitas situações e ainda escrever sobre tudo isso.
Anne Frank era dotada de uma fé incrível. Como judia, por vezes se mostrava temente a Deus e decidida a lutar contra a tentação de viver murmurando sua condição. Em seus relatos é comum vê-la condoer-se por outros judeus sendo perseguido e até mortos em campos de concentração, ou então desabafando com seu diário suas tristezas, mas sem deixar de reconhecer que tinha sorte por estar viva.
Anne morreu aos quinze anos, um ano e meio após ter ido morar no esconderijo, foi separada da família e apenas seu pai, de todos aqueles com os quais ela conviveu no anexo secreto, foi quem sobreviveu ao Holocausto. Foi ele quem encontrou o diário da filha e fez questão de torná-lo público dada a riqueza de alma daquela menina que talvez ele mesmo não conhecesse com tanta profundidade. A publicação do diário foi uma grande contribuição dada ao mundo, já que a obra acabou fazendo parte do vasto acervo de documentos que marcaram esse momento histórico.
Ainda que precocemente ceifada, essa adolescente, a meu ver, era portadora da graça comum de Deus, aquela que se manifesta invariavelmente, até mesmo por quem não a compreende ou alimenta essa pretensão. Anne Frank, pra mim, é um exemplo disso, pois embora registrasse em suas anotações o desejo de tornar-se uma escritora, sua visão de mundo foi capaz de lhe desvendar os olhos e perceber coisas boas em meio a tanta adversidade.
Em um de seus relatos ela diz:
“Se Deus me deixar viver, vou realizar mais do que mamãe jamais realizou, vou fazer com que minha voz seja ouvida, vou para o mundo e trabalharei em prol da humanidade!”
Acho que ela alcançou esse objetivo.
Quem tem ouvidos para ouvir, que ouça...