quinta-feira, 9 de junho de 2011

Soberania ameaçada

                Cada dia que passa mais me convenço de que o Brasil, após mais de 500 anos de descobrimento, ainda não perdeu o estigma de colônia de exploração. Muito me entristece constatar isso. Feliz da vida mesmo está o italiano Cesari Battisti, que graças ao nosso querido ex-presidente, o “lulinha paz e amor”, pode aproveitar com total liberdade tudo o que o nosso país tem de melhor, mesmo carregando nas costas uma ficha marcada por vários  assassinatos cometidos em seu país de origem, revoltando uma nação inteira. Não a nossa, a sua própria. Não sei o que pior. Esse, porém, é apenas mais um dos inúmeros exemplos de decisões arbitrárias, ainda que nada inocentes, que confirmam o fato de que nosso país nunca foi de fato independente. Não é à toa que algo como o turismo sexual seja tão comum no país, já que para a grande maioria dos estrangeiros nossa língua materna é o espanhol, trombamos com primatas pelas ruas e navegamos seminus pelo rio Amazonas. O pior de tudo é conceber a idéia de que não há a menor pretensão de desconstruir essa imagem. Parece que o “filósofo” Ney Matogrosso acertou em cheio quando disse que “não existe pecado debaixo do Equador”. Mas não era pra menos. Se pra demitir nosso Chefe da Casa Civil, acusado de enriquecimento ilícito e tráfico de influência, já foi um verdadeiro parto, como se ele fosse a vítima da história, porque o Brasil perderia a oportunidade de fazer jus à sua tão controversa cordialidade?

        Afinal, somos um país que costuma se gabar de sua receptividade, que se caracteriza por ser uma nação que se reinventa a cada dia, mas que, por conta disso, não mede as consequências. Pior do que isso é perceber que mesmo legislando em causa própria e teoricamente defendendo o suposto livre arbítrio de seus compatriotas, as autoridades brasileiras põem em risco até mesmo sua própria Constituição, em nome da pós-modernidade. Cada vez mais o discurso convence de que a luta é pela liberdade enquanto se lê nas entrelinhas que os direitos assegurados pela democracia estão sendo ameaçados. E não há somente uma única prova disso. A lei que chama de “homofóbico” quem não concorda com um determinado tipo de comportamento alegando, que isso fere a liberdade, justamente cerceia a liberdade daqueles que se opõem. Estabelecer cotas segundo parâmetros raciais também fere a liberdade daqueles que não as tem em seu favor. Penso que em qualquer lugar do planeta, o potencial se mede pela competência e não pela cor da pele. Enfim. O problema, porém, não para por aí. As leis a favor das minorias, não que devam ser ignoradas, mas sim tratadas na medida em que não se tornem fator discriminatório, só vem a confirmar essa coisa perigosa chamada relativismo na qual caiu o nosso Brasil. Quando ele impera, o Estado vai caminhando para a dissolução da vivência em sociedade, gerando ainda mais segregação, já que cada um deve defender o que pensa, ainda que, para isso, seja necessário sobrepujar a Carta Magna de um país. Em nome da tolerância já estamos chegando ao ponto de não tolerar que a educação dos filhos seja prerrogativa de seus pais. Questões de foro íntimo, as particularidades de cada família (sem defender, é claro, abusos de qualquer espécie), acabam caindo nas mãos dos governantes. Como se eles fossem parâmetro pra educar nossos filhos.
 
         As coisas estão tão fora de controle que já está se ouvindo falar de nações como a China, por exemplo, interessada em adquirir propriedades no Brasil a fim de garantir suprimentos para o seu país, já que a produção de alimentos ali é praticamente inexistente. O que dizer sobre isso? Aterrorizante.

          Pensando esse contexto a sensação é a de que tudo não passou de um sonho, de que na verdade nunca fomos independentes e que tanto faz como tanto fez se temos Constituição ou se protegemos criminosos foragidos. Afinal de contas, pra que se dar ao trabalho? A reposta de um típico brasileiro poderia ser uma outra pergunta: Quem se importa? Em tese, parece que é assim que as coisas por aqui funcionam. “Se eu estou bem e tenho meus direitos assegurados, por que me importaria com os seus?”, poderia-se dizer.  Às vezes tenho a impressão de que caminhamos para instituir essa máxima.

      É bem verdade que esse quadro mais parece um grande pesadelo. Ainda que essa perspectiva pareça real, infelizmente talvez até o seja, não se pode dar lugar a inércia, por mais tentadora que ela possa ser. Enquanto mantemos vivas as nossas crenças e defendemos a verdade, não podemos sucumbir à fôrma que nos é imposta. Não se pode jamais perder a soberania própria, ainda mais porque ela se encontra sob a égide da soberania divida, ainda que sofra constante e insistente ameaça.


segunda-feira, 21 de março de 2011

Arrazoando...


Há cerca de um mês comecei a leitura de um dos textos que mais me encantam na Bíblia, a primeira carta que o Apóstolo Paulo enviou aos seus amados irmãos Coríntios. Destacar um ou outro ponto da carta, na verdade seria uma grande injustiça, pois pela sabedoria e soberania divinas toda ela merece destaque. Paulo inicia sua conversa com aquela igreja de modo bastante caloroso deixando clara sua gratidão por saber que aquelas pessoas eram herdeiras da maior fortuna que um ser humano poderia acumular, a vida eterna. Algo que me encanta muito nessa comunicação do apóstolo é seu modo franco de se dirigir a um grupo de pessoas que ele conhecia bem, afinal fundara aquela comunidade, e por isso tinha grande apreço por aqueles irmãos. Esse apreço e dedicação ficam nítidos também porque ele não deixa de exortá-los quanto aos seus maus hábitos envolvendo questões éticas e morais, vaidades, conflito de interesses e discórdia. Falar sobre isso com sinceridade era mais uma prova do profundo carinho que Paulo nutria pelos coríntios.
O fato é que a decadência moral sempre contemplou toda e qualquer civilização. Já nos tempos antigos, impérios como o grego, o egípcio, o romano eram marcados pela promiscuidade, pelo culto ao prazer, sem se dimensionar conseqüências. Quando assisti a série de TV chamada “Roma”, na qual o modus vivendi no período do Império Romano é desvelado, fiquei de certa maneira chocada com a maneira como se estabeleciam as relações interpessoais, de modo que a própria nobreza, contaminada pela promiscuidade e fazendo uso dela como instrumento de barganha, usava essas práticas como meio para se conseguir poder, status, ou seja, tudo aquilo de ruim que alimenta o coração humano degenerado. O resultado dessas relações tênues, muitas vezes deturpadas e inconseqüentes só podia acabar em tragédias familiares, morte, ódio, e nada há de virtuoso nisso. O Carnaval 2011 e os indicadores de violência associados à festa estão aí e não nos deixam mentir. Os coríntios, antes do contato com o evangelho, também viviam de modo semelhante.
A carta que Paulo escreve a eles mostra que muitas dessas práticas ainda se faziam presentes mesmo após a conversão, e o pior de tudo é que algumas delas se camuflavam com uma capa de espiritualidade com a qual muitos se cobriam. Uma igreja que se gabava pela quantidade de “dons espirituais” envolvendo línguas estranhas, profecias e até curas escondia atrás disso sua própria decadência moral. Paulo queria literalmente descobrir, isto é, retirar de sobre eles esse invólucro bonito para deixar tudo às claras e mostrar que a verdadeira espiritualidade se vivencia principalmente nas relações interpessoais, e eram justamente essas relações que necessitavam tanto ser corrigidas.
Fiquei pensando na minha própria vida quando li essa carta, que pra mim é maravilhosa, e só posso chegar à conclusão do quanto é muito mais fácil demonstrar externamente minha devoção a Deus do que quando estou em casa corrigindo minhas filhas ou no meu relacionamento com meu marido, pais, sogros... e até mesmo na Igreja onde congrego, pois é a segunda casa daqueles que foram regenerados pelo sangue do Cordeiro, nosso amado Jesus Cristo. Aí sim as coisas se tornam complicadas e embora a imoralidade não seja tão evidente, muitas pessoas ainda acham que ela pode trazer algum tipo de bem ou vantagem. Quando vejo jovens que um dia estiveram tão próximos a Deus trocando esse relacionamento pelas ofertas baratas que o mundo oferece, sinto uma dor intensa pelo fato de ter absoluta certeza de que quanto mais se desfruta do que o mundo pode oferecer mais se afunda, mais se quer mais, como um buraco sem fundo. O pior de tudo isso é que as práticas que conduzem ao erro são aquelas que evidenciam a morte, são aquelas que testificam que o nosso corpo é mortal, pois a morte é a recompensa daquele que peca! “O ferrão da morte é o pecado”, já disse Paulo a esses mesmos destinatários.
Muitos querem negar essa verdade, argumentando que é preciso aproveitar a vida, e que isso só é possível quando a vida é dividida em segmentos e Deus ocupa apenas mais um deles.  Trocando em miúdos é exatamente isso que acontece, Deus passa a ocupar uma parcela da vida humana. Isso contraria exatamente o que disse uma vez Jonathan Edwards: “Não há nenhuma parte da vida humana sem que Deus diga: isso é meu”. Por mais que se queira ficar livre dessa, a verdade é sempre verdade, quer se acredite ou não.
 Ao final da carta, Paulo se digna a proferir uma palavra de coragem: “Portanto meus amados irmãos, mantenham-se firmes, e que nada os abale. Sejam sempre dedicados à obra do Senhor, pois vocês sabem que, no Senhor, o trabalho de vocês não será inútil”. (1 Coríntios 15.58). A questão é se lembrar de uma outra máxima: A graça de Deus é o bastante!

sexta-feira, 18 de março de 2011

Vende-se alegria...

Dias atrás li um texto que recebi por e-mail que só fez aumentar o tamanho da minha indignação com esse bombardeio de ofertas e propostas de compra que recebo todo dia via e-mail ou sites de relacionamento. São propostas “irresistíveis” para viagens, roupa nova, bolsa a preço de custo, sapatos de marca, jantares elegantes, pratos exóticos seja lá o que for. É impressionante que sob o pretexto do preço mais baixo viabilizado pelo volume de inscrições e acessos acabamos nos convencendo de que temos que ter tudo aquilo que nos é ofertado, pois do contrário, nossa vida não tem a menor graça. Será?
As inúmeras ofertas e oportunidade imperdíveis, parecem brotar como erva daninha em terreno abandonado.  A ironia disso tudo é que se não nos cuidamos essa metáfora acaba virando realidade e vai dominando nossa mente a tal ponto que nos pegamos começando o dia ansiosos pelas novas sugestões de consumo, como se não pudéssemos passar sem elas.
No texto que li, o autor questionava justamente um fenômeno que é corriqueiro nesse mundo capitalista em que vivemos, o culto ao “melhor”. Melhor carro, melhor celular, melhor laptop, melhor tênis, melhor calça jeans, melhor restaurante, melhor viajem, e por aí vai. Coisas essas que até certo ponto parecem legítimas, afinal, buscar melhorar de vida não é nenhum pecado. O problema é quando isso provoca uma doença, uma doença na alma, que fica viciada no “melhor” e não tem olhos pro que já se conquistou. As conseqüências podem ser desastrosas. Muitas pessoas e até mesmo famílias tem sucumbido à tentação do ter em detrimento do ser. Não quero dizer com isso que sou a favor de privações ou que não concordo com a busca pelo melhor preço a ser pago num produto. Acho, inclusive, que compras em ambiente virtual, por exemplo, podem ser muito mais vantajosas na relação custo/benefício do que em muitas lojas físicas. A questão é que estamos sendo invadidos em nossa privacidade quando abrimos um dos meios de comunicação mais pessoais e particulares e nos deparamos com uma chuva de informes publicitários, que em sua maioria são bem atraentes. O apelo ao consumo tem assediado gente de todo tipo, de todas as idades e, a meu ver esse apelo constante só faz aumentar os sentimentos de frustração, inferioridade, e a sensação de que só se é feliz se há poder de compra.
Seria bom pensar numa maneira de não ficarmos tão expostos a essas chamadas “irresistíveis”, quem sabe nos desvinculando de alguns grupos ou simplesmente cuidando pra trazer à memória o quanto somos afortunados.  

O que me motivou a escrever esse texto, a princípio foi uma inquietação diante da atitude alheia, de um fator externo a mim. Claro que isso não significa que aprovo esse procedimento, continuo a condená-lo, pois acho muito invasivo receber diversas vezes ao dia informações sobre como e com o que devo gastar meu dinheiro.  Ao final da reflexão, porém, noto que essa indignação na verdade deveria começar com as minhas próprias atitudes e reações diante do problema.
 Talvez falte em nós a necessidade de simplesmente agradecer pelo que se tem.  Já dizia o apóstolo Paulo ao seu amigo Timóteo: “Se há o que comer o com o que nos vestir, estejamos contentes”. E olha que essas palavras vieram de alguém que sabia por experiência própria o que é o não ter. O mais interessante de tudo é que justamente o não ter foi o que fez de Paulo um homem que sabia viver contente em toda e qualquer situação. Vou procurar me lembrar disso a próxima vez que estiver diante de uma oferta imperdível. Isso sim é um desafio!

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Jogo de Palavras

Uma das razões que me motivaram a inaugurar esse blog foi justamente a possibilidade de expressar o que penso e sinto como também pela oportunidade de publicar textos que escrevi em outras ocasiões e agora posso guardá-los pelo menos como um patrimônio pessoal.
Bom, o texto que publico hoje na verdade é o resultado de uma atividade que fiz no meu curso de mestrado e que tinha como objetivo fazer o relatório e um breve resumo de uma palestra que a turma assistiu. O problema é que isso teria que ser apresentado como uma narrativa estética. Como não sou muito boa em desenho e performance resolvi fazer essa tarefa em forma de texto, brincando com as palavras. A palestra tinha como foco estudos a respeito do corpo. E a brincadeira já começa no título:


Corpo em evidência

Na manhã do dia 25 de março desse ano de 2009, numa súbita mudança de planos, mobilizamos nossos corpos ao décimo primeiro andar do edifício da Rua Piauí, número 143 para uma nova dinâmica instrutiva.
Ao chegarmos à porta do auditório, deparamo-nos com corpos disputando um pequeno espaço, afinal, como diz a lei da física, dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo, e estes tinham como objetivo assinar uma lista que atestaria a presença desses mesmos corpos naquele recinto.
Incorporados ao ambiente, alunos e professores de diversos campos aguardavam uma experiência corporal na qual mente e físico estariam alinhados para a compreensão de uma nova temática.
À mesa, dois corpos se movimentavam, o da palestrante e o do apresentador, chamando a atenção dos presentes para o assunto que estaria em pauta: “O Corpo”.
Víamos, como principal expositora do tema, o corpo de Christine Greiner movimentar-se no sentido de expressar através de palavras e gestos alguns aspectos de sua obra intitulada “O Corpo”, que na verdade incorpora uma coleção sobre “leituras do corpo”.
Sobre a obra, a autora comentou que foi o início de uma série de estudos a respeito da temática do corpo, que vem sendo debatida de forma que ela classifica como indisciplinar. O intento a partir dessa abordagem seria caminhar pela quebra de fronteiras da disciplinaridade, já que o corpo não está destituído de faculdades como percepção, consciência e metáforas corporais e, por isso, seus movimentos e reações caminham indisciplinarmente. Corpos movimentando-se na dança e no teatro fizeram parte da pesquisa da autora, que manteve em sua mente a seguinte pergunta: “Como o corpo pensa?”. Em busca de respostas passou a procurar referências bibliográficas de pesquisadores de formação científica que tivessem um trânsito na filosofia.
Corpos movidos pelas heranças culturais presentes na cultura japonesa, corporificam, segundo a autora, o caráter híbrido desse povo e que teriam uma conexão com a cultura brasileira.
Um grande dilema incorpora-se à pesquisa quando se tenta descobrir se o corpo é construído pelo meio ou é o sujeito que o constrói. Sob essa ótica, incorporam-se os conceitos de unvelt (distinção entre comportamento animal e humano), consciente cognitivo e corporificação, no sentido de se pensar a transformação de cada corpo no ambiente em que está inserido a partir de sua singularidade.
Segundo admite a própria autora, o corpo teórico de sua pesquisa está vinculado ao fenômeno que se deseja estudar e não oferece todas as possibilidades. Relação entre corpo e mídia e corpo na mídia também compõem o corpus da pesquisa já que questões como empatia e relação entre consumo e produção revelam corporalmente o que a autora chama de reinvenção do corpo.
Levar nossos corpos a trilhar por caminhos desconhecidos promove a tal reinvenção mencionada pela autora, pois transcende a experiência física e sensorial para atingir as conexões neurológicas intra-corporais. Entre conteúdo e reflexões incorporam-se idéias, mas também incertezas.

É isso...

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Caixinha de surpresas

Por que às vezes é tão difícil organizar idéias que já foram pensadas, revistas, exploradas à exaustão e ainda assim, por conta da pressão, ter dificuldades pára expô-las? É exatamente essa sensação que estou sentindo agora.
Amanhã é o dia marcado para que eu apresente conceitos que já defendi com unhas e dentes, e que conheço com certa profundidade, mas que, por conta da pressão que toda essa situação envolve, me vejo impedida de levar a cabo o que me propus.
Na grande maioria das vezes a pressão, ou seja, o fim do prazo para a realização de uma tarefa, é como um grande impulso pras minhas idéias, como uma força motriz. Hoje, as coisas não estão funcionando assim.
É impressionante como somos capazes de nos surpreender conosco mesmos, como somos vulneráveis às circunstâncias adversas. Isso no meu caso está causando grande desconforto. Como seria bom não sermos pegos de surpresa por nós mesmos, não sermos assaltados pelas nossas próprias reações.  Amanhã vou estar diante de pessoas não totalmente desconhecidas, mas de certa maneira incapazes de avaliar de forma plena quem eu sou e a que venho, pois isso vai depender exclusivamente de como vou vender meu peixe.
Seria tão mais fácil se ao longo da vida não precisássemos de tanta formalidade para expor nossas opiniões ou defender projetos, mas por outro lado, consigo enxergar o lado bom de tudo isso. Toda essa situação traz uma gama de implicações: gera responsabilidade, compromisso, honestidade e revela o caráter. É isso mesmo. Não fosse essa necessidade de submissão a ordens e regras jamais seríamos capazes de chegar aonde conseguimos chegar, ultrapassar nossos limites. Pensando assim, até consigo aliviar minha apreensão por saber que serei esgotada em meu potencial criativo, terei a oportunidade de vislumbrar o quanto ainda posso melhorar minhas incumbências.
Bom, tudo isso porque vou ter a oportunidade de revelar minhas descobertas diante de três mestres, cada qual de posse delas em mãos. Cada um com considerações a fazer e com a total liberdade de desbancar tudo o que construí. Parece assustador, uma maneira de ser colocada em situação altamente constrangedora e subserviente. De qualquer forma não há outra saída senão me submeter. É que na verdade esperava estar melhor preparada para o momento. A sensação que tenho é a de que isso nunca será possível.
Talvez me cobre demais, talvez esteja lutando contra a necessidade de reconhecer que a condição humana tem limites. Infelizmente também sofro desse mal, só peço a Deus para não sucumbir a ele.
O bom é enxergar onde toda essa conversa está me levando. Nada como refletir sobre as nossas imperfeições e saber que apesar delas ainda podemos servir. É isso que desejo, nada mais fiz do que senão explorar um assunto que a meu ver deixaria sua contribuição (mais tarde falarei sobre ele).
Espero fazer minhas essas palavras: "Eis que em Cristo, meu Deus deu a mim (...) por mera e gratuita misericórdia, todas as riquezas da justiça e da salvação, de sorte que, além disso, não necessito absolutamente de mais nada a não ser da fé que crê que as coisas são de fato assim. (...) Assim me porei à disposição de meu próximo como um Cristo, do mesmo modo como Cristo se ofereceu a mim, nada me proponho a fazer nesta vida a não ser o que vejo ser necessário, vantajoso e salutar ao meu próximo". (Martinho Lutero)
Que tudo isso seja uma grande motivação, uma busca por oferecer o melhor, ainda que o preço seja mais alto do que espero. Meia noite ainda é dia...

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Nas entrelinhas

Fiquei pensando no que dizer no meu primeiro post desse canal de expressão das minhas impressões sobre os mais diversos fatos da vida. Pensei então em começar comentando a respeito de algo que pra mim funciona como uma mola propulsora me induzindo a escrever: a leitura.
Janeiro foi bastante proveitoso nesse sentido. Creio ter lido mais de 1000 páginas somando os quatro livros que li ao longo do mês. Dois livros da série “Mitford”, “O Monge e o executivo” e “O Diário de Anne Frank” foram os títulos que ceifaram boa parte do meu tempo livre do período de férias que eu mesma me dei. Foram horas, na minha opinião, muito bem gastas, desfrutando da companhia de personagens no mínimo intrigantes e que ofereceram razões sem número para momentos de reflexão. Embora os três primeiros citados tenham me levado a internalizar diversos conceitos e até mesmo padrões de comportamento, já que a espiritualidade contida neles se fazia presente de forma a encontrar minhas próprias concepções e crenças, não pude deixar de atentar para os relatos surpreendentes de uma menina judia de apenas 13 anos, chamada Anne Frank. Sempre tive curiosidade pra ler esse livro, pouco sabia a respeito, mas algo me fazia lembrar-me desse título sempre que adentrava uma livraria. O livro já havia sido comprado fazia um certo tempo mas a oportunidade para lê-lo veio no início desse ano.
Anne Frank (sinto-me a vontade para dar essas informações, pois são do conhecimento de todos) foi obrigada a se mudar para um esconderijo localizado no subsolo de uma mercearia numa cidade holandesa, para que sua família não fosse descoberta durante o Holocausto. Ela começou a escrever esses relatos já nos primeiros dias morando ali naquela espécie de casa secreta, de cômodos apertados e compartilhada entre duas famílias a princípio desconhecidas, mas que haviam se tornado irmãs por força das circunstâncias. Pensando no sobrenome, Frank, que sempre me traz a mente a palavra “franca”, caso essa fosse a tradução, os relatos daquela adolescente cheia de vida e sonhos condenada a viver em condições tão coercitivas, são de uma franqueza além de uma vivacidade arrebatadora.  É impossível ler o livro sem pensar naquele terrível contexto vivenciado por ela, sua irmã mais velha, seus pais e os membros da outra família, embora por vezes, a energia presente nos relatos de Anne quase nos afastem desses pensamentos. Com muita sinceridade, Anne escrevia com detalhes as sensações que permeavam aquele ambiente que tinha tudo para ser hostil, mas que no coração e na mente daquela menina, não eram capazes de sufocar sua esperança de contemplar o fim da guerra e ver sua família livre. Os relatos me causaram profunda admiração porque apesar daquelas circunstâncias tão difíceis, em que por vezes, eles ficavam sem água, às vezes faltava alimento, às vezes eram obrigados a prender a respiração para que não fossem ouvidos, aquela jovem conseguia ainda estudar, rir de muitas situações e ainda escrever sobre tudo isso.
Anne Frank era dotada de uma fé incrível. Como judia, por vezes se mostrava temente a Deus e decidida a lutar contra a tentação de viver murmurando sua condição. Em seus relatos é comum vê-la condoer-se por outros judeus sendo perseguido e até mortos em campos de concentração, ou então desabafando com seu diário suas tristezas, mas sem deixar de reconhecer que tinha sorte por estar viva.
Anne morreu aos quinze anos, um ano e meio após ter ido morar no esconderijo, foi separada da família e apenas seu pai, de todos aqueles com os quais ela conviveu no anexo secreto, foi quem sobreviveu ao Holocausto. Foi ele quem encontrou o diário da filha e fez questão de torná-lo público dada a riqueza de alma daquela menina que talvez ele mesmo não conhecesse com tanta profundidade. A publicação do diário foi uma grande contribuição dada ao mundo, já que a obra acabou fazendo parte do vasto acervo de documentos que marcaram esse momento histórico.
Ainda que precocemente ceifada, essa adolescente, a meu ver, era portadora da graça comum de Deus, aquela que se manifesta invariavelmente, até mesmo por quem não a compreende ou alimenta essa pretensão. Anne Frank, pra mim, é um exemplo disso, pois embora registrasse em suas anotações o desejo de tornar-se uma escritora, sua visão de mundo foi capaz de lhe desvendar os olhos e perceber coisas boas em meio a tanta adversidade.
Em um de seus relatos ela diz:
“Se Deus me deixar viver, vou realizar mais do que mamãe jamais realizou, vou fazer com que minha voz seja ouvida, vou para o mundo e trabalharei em prol da humanidade!”
Acho que ela alcançou esse objetivo.
Quem tem ouvidos para ouvir, que ouça...